terça-feira, 18 de agosto de 2015

COMO "TENTAR" ENTENDER A CABEÇA DE UM TRADICIONALISTA?



 Para escrever esse texto eu parto de um princípio pressuposto, a começar pela palavra entender, que trago no título desse texto no verbo contínuo ou no popular gerúndio, pra ficar mais claro e entendível. A palavra entender, como boa parte das palavras do português vem de uma junção de prefixo e sufixo do latim ou grego; nesse caso aqui a palavra vem do grego “in” (prefixo), que quer dizer interno, interior, ou flexão do verbo entrar no infinitivo; adicionado ao que se aproxima da expressão “tendeare” (sufixo), que em suma quer dizer tenda ou acampamento. Logo entender significaria em sua essência entrar na tenda do outro. Eu só compreendo a realidade do outro se eu faço o esforço de entrar em sua tenda, pra no mínimo enxerga-lo mais de perto e vê-lo em sua totalidade. O problema é que muitas vezes se confunde entrar na tenda, entender, com “comungar com o outro”, que nesse caso seria outra raiz semântica ligada ao verbo “comer”, comungar ou concordar plenamente com suas ideias, opiniões ou posicionamentos. E não se trata disso o nosso texto!

No que tange ao campo das ideias e opiniões, se as faço descuidadamente eu no mínimo corro sério risco de fazer pré-julgamentos errados, injustos e/ou até, na melhor das hipóteses, me colocando numa condição de ser ridicularizado a público (no caso de falar abobrinhas), tendo uma resposta à altura ou mais bem elaborada. Isso não serve somente para esse caso, mas em qualquer situação de nossas vidas que requererem de nós um posicionamento frente à uma realidade. 

Pois bem, quanto aos grupos tradicionalistas católicos (conclavistas ou não, sevacantistas ou não, Lefebvristas ou não, ou ante-vaticanistas e outros) que na atualidade têm emergido em nossas paróquias, dioceses e comunidades eclesiais de base, e comunidades virtuais e blogs mundo a fora que pretendo analisar neste contexto, uma coisa é verdade, se não tentar entende-los melhor para discorrer algum tipo de opinião, orientação, seja contrária ou a favor, saibam, eles viram com toda “fúria dos mártires”, armados até os dentes com o catecismo (não o atual de São João Paulo II, mas o Catecismo de São Pio X... só esse que vale, pra eles) e com os documentos dos papas (não dos atuais, mas os dos papas anteriores ao Papa Paulo VI, sobretudo o Concílio de Trento, só esses que valem, pra eles).

Mas vejam bem, ha quase 05 anos tenho tentado entender o pensamento e os posicionamentos apologéticos desses grupos, e muito mais do que entendê-los pra ter uma resposta na ponta da língua, eu busco entende-los de fato para tentar ajudar em algo frente ao impasse, pois vão por mim, isso não é um problema pequeno a ser ignorado, é de fato um problema para a Igreja e não adianta fecharmos os olhos, se todos nós somos igreja do mesmo Cristo que afirmou certa feita “que não se perca nenhum desses pequeninos” (Mt 18,14), logo, seria uma fatalidade ignorá-los afim de que se percam. Como Igreja que somos, devemos sempre colaborar com a sua unidade, e quando dizemos aqui unidade, não entendam uniformidade, a Igreja e nem os papas não querem que sejamos uniformes, a meu ver a diversidade católica é saudável quando as divergências dos pensamentos transitam pelas vias da verdade de Cristo, e nunca pela prepotência de nossas certezas individuais, aqui é pertinente citar o Código de Direito Canônico, onde retrata o dever do apostolado leigo para labutar pela unidade e para que a salvação seja conhecida, 

premente naquelas circunstancias em que somente por meio deles (os leigos) os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo.” (Cân. 225 § 1.).

Em todo esse tempo, tenho feito o exercício do dialogo, na experiência de entrar na tenda, afinal de contas, tenho alguns bons amigos que, persuadidos pela ânsia do conhecimento acima de tudo, acabaram por debandarem por esse caminho e mudaram totalmente seu comportamento para com os que os rodeavam e até mesmo familiares por causa de suas novíssimas convicções. Tenho pesquisado muito, feito trocas de opiniões e às vezes debates, (nunca fujo a eles), não somente com os que estão no território de nossa diocese, mas através do nosso Blog Cantina Literária, tenho me correspondido com adeptos a esses grupos de várias partes do Brasil, muitos deles até me consideram como um dos seus, mas por esses dias tenho preferido optar por uma atitude mais centrada no silêncio e na oração de súplica ardente ao Espirito Santo, por perceber que infelizmente não é só mais uma onda de modismo, mas é um cisma sério bem no seio da Igreja, porem, basta conhecer um pouco da história da Igreja para percebermos que o auxilio do Espirito Santo, nunca nos faltou em tempos de desacordos e de maneira nenhuma não será agora que nos faltará.

Como dissemos acima, eles estão sempre prontos com os documentos da Igreja e o Código de Direito Canônico nas mãos, sabem as citações praticamente de “cor e soltiado” como dizia minha vó, eles afirmam verdades com uma certeza invejável até para os papas, citam o documento tal para isso e o documento tal para aquilo, e o santo tal para aquilo’utro mas quando alguém os faz lembrar as palavras de Jesus nos evangelhos, talvez para tentar amenizar o peso das condenações de seus repertórios discursivos, partindo das palavras do Cristo, que disse inúmeras vezes “Eu não vim para condenar o mundo” (Jo 3, 17), eles logo vêm exortando, seja através de links ou parafraseando a cerca do Decreto da Sessão IV, no parágrafo 786 do Concílio de Trento que condena a livre interpretação das Escrituras, “- Isso não pode!!! Você não tem autoridade para interpretar livremente a palavra de Deus!” - Dizem eles, com tons cada vez mais exortativos - E de fato, não é mentira, o decreto existe e não podemos ignorá-lo, a Igreja Católica realmente vê com muita cautela sobre a livre consulta da bíblia sem levar em consideração os outros dois pilares, o Sagrado Magistério e a Sagrada Tradição, ou seja em suma, é o aval da Santa Igreja que testifica a Verdade e é ela a quem “compete julgar sobre o verdadeiro sentido e interpretação das Sagradas Escrituras”, para o processo de compreensão da vontade de Deus para o homem impedindo assim, interpretações errôneas, descontextualizadas, particulares e fundamentalistas da Bíblia. 

Mas, cá pra nós! Essa verdade também não valeria para o Sagrado Magistério? Partindo dessa fundamentação, será que qualquer um poderia interpretar o Sagrado Magistério ao seu bel prazer, para justificar seus posicionamentos? Seria permitida a livre consulta do Magistério e da Tradição sem levar em consideração as Escrituras? O próprio Concílio Vaticano II, rejeitado por quase todos esses grupos tradicionalistas, no Documento Dei Verbum afirma que a Sagrada Tradição, e em consequência o Sagrado Magistério tem o mesmo peso de revelação das Sagradas Escrituras, logo, essa mesma norma, da livre interpretação seria também válida para aqueles que usam o Sagrado Magistério como escudo ou espada a serem usadas em debates.

Ainda sobre o Concílio de Trento, vale lembrar que a proibição não está simplesmente em ler individual e devotamente a Sagrada Bíblia, e por consequência o Sagrado Magistério e a Sagrada Tradição, buscando um direcionamento no caminho da santidade. A Palavra de Deus é, diz o Magistério de Trento “fonte de toda a verdade salutar e disciplina dos costumes e deve ser ensinada à toda a criatura” (§783). Vejamos um trecho na íntegra do parágrafo §786 quando fala sobre o perigo da livre interpretação, 

“Ademais, para refrear as mentalidades petulantes, decreta que ninguém, fundado na perspicácia própria, em coisas de fé e costumes necessárias à estrutura da doutrina cristã, torcendo a seu talante a Sagrada Escritura, ouse interpretar a mesma Sagrada Escritura contra aquele sentido, que [sempre] manteve e mantém a Santa Madre Igreja, a quem compete julgar sobre o verdadeiro sentido e interpretação das Sagradas Escrituras, ou também [ouse interpretá-la] contra o unânime consenso dos Padres, ainda que as interpretações em tempo algum venham a ser publicadas.” (CONCÍLIO ECUMÊNICO DE TRENTO, Seção IV, paragrafo 786 – 1545 – 1563)

No texto citado acima, vale chamar a atenção para o conector que eu livremente grifei, “contra aquele sentido”, ou seja, a proibição é para uma interpretação maliciosa no que tange a algo relacionado a “fé e costumes” ligados à estrutura doutrinal da fé cristã, que tenha a inclinação à desdizer algo que anteriormente fora dito, desmentir aquele sentido que sempre manteve e mantem a Santa Igreja, em outras palavras esses três pilares devem ser observados um em sintonia com o outro, um nunca pode desmentir o outro e vice e versa. 

Também nos ajuda na compreensão do que disse o Concílio de Trento, se levarmos em consideração que o mesmo ocorreu no período Pós Reforma Protestante, durou cerca de 18 anos e fora guiado por 06 papas, pelos santíssimos papas Paulo III, Júlio III, Paulo IV, Pio V, Gregório XIII e Sisto V. Os teólogos convocados para a reunião conciliar, tinham como papel fundamental auxiliar a Igreja e o Papa através de suas análises, para resguardar o depósito da fé que era ameaçada pelo novo movimento religioso, e o papa por sua vez, faz uso de sua autoridade de exortar o povo de Deus “contra os inovadores do século XVI”, aprovando os decretos e os divulgando para os bispos do mundo inteiro daquela época. Lembrando mais uma vez que o mesmo teor exortativo deve valer não somente para as Escrituras, mas qualquer leitura “maliciosa e tendenciosa de mentalidades petulantes” também do Magistério, para defender a sua própria verdade.

É comum vê-los e ouví-los esbravejarem contra o atual Papa emérito Bento XVI, sobretudo os mais radicais, dizem ser o teólogo Joseph Ratzinger o culpado pelo que consideram ser a “catástrofe conciliar” sendo ele, na época um dos mais importantes teólogos assistentes do Concílio Vaticano II, também colocam nas costas de Ratzinger a acusação de ambiguidade no Decreto Dominus Iesus sobre o famigerado diálogo Inter-religioso e ecumenismo, mas quando são questionados a cerca de se celebrar missas no Rito tridentino, e muitas vezes de forma clandestina, diga-se de passagem, eles não titubeiam em citar o Motu Próprio Summorum Pontificum do então Papa Bento XVI que segundo afirmam, os autoriza a tal prática.  

É claro que eu não louco de dizer que a Missa Tridentina não teria valia, como reprovar uma prática litúrgica que prevaleceu há mais de 400 anos na Igreja e ainda é celebrada em alguns lugares, como mosteiros, casa religiosas e etc? Claro que eu em sã consciência não faria isso, mas também considero loucos aqueles que pensam que só a Missa no rito Tridentino é que tem valia. Eu até tenho uma certa preferencia pessoal pelas missas celebradas parciais ou completamente em latim, há muita beleza e riqueza litúrgica e por que não dizer histórica no rito, mas concordo com pensadores como padre Paulo Ricardo que dizem, há mais beleza artística do que eficácia pastoral uma missa celebrada toda em Latim. 

Com base no mesmo tipo argumentativo de reter apenas o que convém, o fazem, quando para defender os esforços de Marcel Lefebvre e o canonizarem como o mentor da chamada resistência, citam a Carta de Bento XVI endereçada à remissão da excomunhão do Arcebispo juntamente com os quatro outros bispos ordenados por ele “de forma válida porem ilegítima” como afirma o próprio documento, ou seja, uma hora lhes convém o magistério papal de Bento XVI para justificar suas práticas, outrora, quando não lhes convêm, o mesmo é refutado e contestado, não seria no mínimo incoerente? Sem contar que, a meu ver, contestar as contribuições de um teólogo brilhante como Joseph Ratzinger, um Papa que conduziu com braço forte a Igreja no pior momento da crise, deu uma prova de humildade e temperança ao renunciar para o bem maior da Igreja mesmo tendo dimensão de todas as difamações e más interpretações que poderiam vir, um homem que já em vida demostra claramente sinais fortes de santidade, tal contestação além de presunçosa beira a loucura.

Também não é muito difícil vê-los e ouvi-los discorrer presunçosamente sobre o Concílio Vaticano II, e para pô-lo ao descrédito, e com pressa lançar no inferno todos os que estão unidos a ele e o consideram parte importante do Magistério atual. E para o fazerem com a liberdade de não estarem cometendo heresia, tratam logo de deixar claro que o CVII não é um concílio Dogmático, logo pode ser debatido e até rejeitado, pra isso se valem das palavras do Papa João XXIII no seu discurso de abertura do Concílio no dia 11 de Outubro de 1962, que afirmou de forma bem clara não ser infalível e dogmático, mas e sim um Concílio prevalentemente pastoral ( e detalhe, xigam, brigam e reprovam várias ações de João XXII, mas suas palavras pra dizer que é um concílio pastoral e não dogmático vale né?).

Será preciso atribuir muita importância a esta forma e, se necessário, insistir com paciência, na sua elaboração; e dever-se-á usar a maneira de apresentar as coisas que mais corresponda ao magistério, cujo caráter é prevalentemente pastoral(João XXIII, Discurso de Abertura do Vaticano II, VI- 4 e 5). 

Ora vejam só, o fato de ser um Concilio pastoral não nos dá o direito de difamá-lo, pelo contrário é um documento que mesmo não sendo essencialmente dogmático, faz parte das riquezas do Magistério da Igreja Universal, cinquenta anos após, a Igreja tem se debruçado em seus textos, decretos e conclusões, ao convite do próprio Bento XVI para mergulharmos em suas riquezas e adaptações na realidade e nos desafios da Igreja hoje. Acreditar que o Concílio Vaticano II fora uma catástrofe como o fazem, é pecar contra a Santidade da Igreja e contra a santidade do Espirito Santo que convocou o concílio para corresponder as necessidades próprias do nosso tempo. Se em Concílio de Trento fez-se uso de tais linguagens para um contexto desafiador daqueles em que propunham “inovações” reformadoras da fé católica como se afirmou no texto acima, no Concílio Vaticano II fez-se uso de uma outra linguagem para corresponder a um desafio próprio desse tempo, se outrora a correspondência era contra “inovações dentro da fé”, no CVII a correspondência era contra o relativismo religioso que visava a destruição e o desaparecimento dessa fé, o homem que ameaçava trocar a fé transcendente pelo conhecimento tecnológico. O Concílio Vaticano II trouxe uma nova vida para a fé católica. 

É claro que, eu como um gramático e ao mesmo tempo estudioso do Magistério, não posso negar que nos textos conciliares não tenham algum problema de ambiguidade linguística sobre alguma questão ou outra, alguns estudiosos já reconheceram isso, e senão o fosse não teríamos tantas discursões ao seu redor, a questão seria unanime, mas para isso há diversos peritos e teólogos labutando para trazer a tona o “verdadeiro espirito do Concílio  Vaticano II” como disse Bento XVI em diversas vezes. Aceitando a hipótese dessa tão pouca importância e irrelevância como querem que seja, do Concílio Vaticano II, uma pergunta as vezes paira em meu pobre aparelho cardiovascular, se ele não tem tanta importância e é irrelevante por ser somente pastoral e não doutrinal, porque então esses grupos gastam tantos neurônios para refutá-lo? Basta visitar os sites e blogs ligados a esses grupos e verão que a maior parte desse rompimento com a Igreja é justificado devido à Roma considerar os ensinamentos do CVII são parte integrante dos tesouros dos ensinamentos da Igreja e do Magistério ao longo de toda a história.

Mas finalizo meu texto com aquelas palavras do evangelista que me causam calafrios nas vias crucis de todas as semanas santas, Depois de o haverem crucificado, dividiram suas vestes entre si, tirando a sorte. Cumpriu-se assim a profecia do profeta: Repartiram entre si minhas vestes e sobre meu manto lançaram a sorte!” Mt 27, 35. O catolicismo sempre fora testemunha de unidade institucional para o mundo e as para todas as outras religiões, e temo que essa unidade esteja abalada profundamente em nossos dias, a própria palavra “católico” vem da expressão grega  καθολικος (katholikos como se lê) que significa universal, em outras palavras a igreja é una, (e não uniforme como dito) uma única Igreja para o mundo. Diferente do protestantismo por exemplo, que se divide em várias expressões de fé, conforme os seus fundadores. Precisamos rezar incansavelmente pela unidade da Igreja, muito mais urgente que o famigerado ecumenismo entre as igrejas.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...