quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

QUEM FORAM HUGO E RICARDO DE SÃO VITOR?

Intervenção do Papa Bento XVII na audiência geral do dia 25 de Novembro de 2019

Queridos irmãos e irmãs:

Nestas audiências das quartas-feiras, estou apresentando algumas figuras exemplares de crentes que se empenharam em mostrar a concórdia entre a religião e a fé e testemunhar, com sua vida, o anúncio do Evangelho.
Hoje quero falar-vos de Hugo e Ricardo de São Vítor. Ambos estão entre esses notáveis filósofos e teólogos conhecidos com o nome de vitorinos, porque viveram na abadia de São Vítor, em Paris, fundada no início do século XII por Guilherme de Champeaux. O próprio Guilherme foi um professor renomado, que conseguiu dar à sua abadia uma sólida identidade cultural. Em São Vítor, de fato, inaugurou-se uma escola para a formação dos monges, aberta também a estudantes externos, onde se realizou uma síntese feliz entre as duas formas de fazer teologia, das quais já falei em catequeses anteriores, isto é, a teologia monástica, orientada mais à contemplação dos mistérios da fé na Escritura, e da teologia escolástica, que utilizava a razão para tentar escrutar estes mistérios com métodos inovadores, de criar um sistema teológico.
Da vida de Hugo de São Vítor temos poucas notícias. São incertos as datas e o lugar do seu nascimento: talvez na Saxônia ou em Flandes. Sabe-se que ele chegou a Paris – a capital europeia da época – e transcorreu o resto dos seus dias na abadia de São Vítor, onde foi primeiro discípulo e depois professor. Já antes da sua morte, ocorrida em 1141, alcançou uma grande notoriedade e estima, até o ponto de ser chamado de “segundo Santo Agostinho”: como Agostinho, de fato, ele meditou muito sobre a relação entre fé e razão, entre ciências profanas e teologia.
Segundo Hugo de São Vítor, todas as ciências, além de ser úteis para a compreensão das Escrituras, têm um valor em si e devem ser cultivadas para engrandecer o saber do homem, como também para corresponder ao seu desejo de conhecer a verdade. Esta sã curiosidade intelectual o levou a recomendar aos estudantes que nunca deixassem de lado o desejo de aprender e, em seu tratado sobre metodologia do saber e de pedagogia, intitulado significativamente de Didascalicon (sobre o ensino), recomendava: “Aprende com prazer de todos o que não sabes. Será o mais sábio de todos quem tiver procurado aprender algo de todos. Quem recebe algo de todos, acaba convertendo-se no mais rico de todos” (Eruditiones Didascalicae, 3,14: PL 176,774).
A ciência da qual se ocupam os filósofos e teólogos dos vitorinos é particularmente a teologia, que requer, antes de mais nada, o estudo amoroso da Sagrada Escritura. Para conhecer a Deus, de fato, não se pode menos que partir do que o próprio Deus quis revelar de si mesmo através das Escrituras. Neste sentido, Hugo de São Vítor é um típico representante da teologia monástica, totalmente fundada sobre a exegese bíblica. Para interpretar a Escritura, propõe a tradicional articulação patrístico-medieval, isto é, o sentido histórico-literal, antes de mais nada, depois o alegórico e analógico e, finalmente, o moral. Trata-se de quatro dimensões do sentido da Escritura, que também hoje são redescobertos, porque se vê que no texto e na narração oferecida se esconde uma indicação mais profunda: o fio condutor da fé, que nos leva ao alto e nos guia sobre esta terra, ensinando-nos como viver.
Contudo, ainda respeitando estas quatro dimensões da Escritura, de modo original com relação aos seus contemporâneos, insiste – e isso é algo novo – na importância do sentido histórico-literal. Em outras palavras, antes de descobrir o valor simbólico, as dimensões mais profundas do texto bíblico, é necessário conhecer e aprofundar no significado da história narrada na Escritura: do contrário – adverte com um exemplo eficaz – se corre o risco de ser como os estudiosos de gramática que ignoram o alfabeto. Para quem conhece o sentido da história descrita na Bíblica, as circunstâncias humanas parecem marcadas pela Providência divina, segundo um desígnio bem ordenado. Assim, para Hugo de São Vítor, a história não é o resultado de um destino cego ou de um caso absurdo, como poderia parecer. Ao contrário, na história humana age o Espírito Santo, que suscita um maravilhoso diálogo dos homens com Deus, seu amigo. Esta visão teológica evidencia a intervenção surpreendente e salvífica de Deus, que realmente entra e age na história, quase se torna parte da nossa história, mas sempre salvaguardando e respeitando a liberdade e a responsabilidade do homem.
Para nosso autor, o estudo da Sagrada Escritura e do seu significado histórico-literal torna possível a teologia verdadeira e autêntica, isto é, a ilustração sistemática das verdades, conhecer sua estrutura, a ilustração dos dogmas da fé, que representa em sólida síntese no tratado De Sacramentis christianae fidei (Os sacramentos da fé cristã), no qual se encontra, entre outros elementos, uma definição de “sacramento” que, posteriormente aperfeiçoada por outros teólogos, contém traços ainda muito interessantes. “O sacramento – escreve – é um elemento corpóreo ou material proposto de forma estranha e sensível, que representa com seu parecido uma graça invisível e espiritual, significa-a, porque com este fim foi instituído, e a contém, porque é capaz de santificar” (9,2: PL 176,317). Por um lado, a visibilidade no símbolo, a “corporeidade” do dom de Deus, em que, contudo, por outro lado, esconde-se a graça divina que provém de uma história: o próprio Jesus Cristo criou os símbolos fundamentais.
Três são, portanto, os elementos que contribuem para a definição de um sacramento, segundo Hugo de São Vítor: a instituição por parte de Cristo, a comunicação da graça e a analogia entre o elemento visível, o material, e o elemento invisível, que são os demais dons divinos. Trata-se de uma visão muito próxima da sensibilidade contemporânea, porque os sacramentos são apresentados com uma linguagem composta por símbolos e imagens capazes de falar imediatamente ao coração dos homens. É importante também hoje que os animadores litúrgicos, particularmente os sacerdotes, valorizem com sabedoria pastoral os sinais próprios dos ritos sacramentais – esta visibilidade e tangibilidade da Graça –, cuidando atentamente da sua catequese, para que cada celebração dos sacramentos seja vivida por todos os fiéis com devoção, intensidade e alegria espiritual.
Um digno discípulo de Hugo de São Vítor é Ricardo, procedente da Escócia. Ele foi prior da abadia de São Vítor entre 1162 e 1173, ano de sua morte. Também Ricardo, naturalmente, designa um papel fundamental ao estudo da Bíblia, mas, ao contrário do seu mestre, privilegia o sentido alegórico, o significado simbólico da Escritura, com o qual, por exemplo, interpreta a figura veterotestamentária de Benjamim, filho de Jacó, como símbolo da contemplação e cume da vida espiritual.
Ricardo trata deste tema nos textos Benjamim menor e Benjamim maior, nos quais propõe aos fiéis um caminho espiritual que convida antes de mais nada a exercitar as diversas virtudes, aprendendo a disciplinar e a ordenar com a razão os sentimentos e os movimentos interiores afetivos e emotivos. Somente quando o homem alcança o equilíbrio e a maturidade humana neste campo é que está preparado para entrar na contemplação, que Ricardo define como “um olhar profundo e puro da alma dirigido às maravilhas da sabedoria, associada ao um senso extático de assombro e de admiração” (Benjamim Maior 1,4: PL 196,67).
A contemplação é, portanto, o ponto de chegada, o resultado de um árduo caminho, que comporta o diálogo entre a fé e a razão, isto é – mais uma vez – um discurso teológico. A teologia parte das verdades que são objeto da fé, mas tenta aprofundar seu conhecimento com o uso da razão, apropriando-se do dom da fé. Esta aplicação do raciocínio à compreensão da fé se pratica de modo convincente na obra prima de Ricardo, um dos grandes livros da história, o De Trinitate (A Trindade).
Nos 6 livros que o compõem, reflete com agudeza sobre o mistério de Deus uno e trino. Segundo nosso autor, dado que Deus é amor, a única substância divina comporta comunicação, oblação e dileção entre duas Pessoas, o Pai e o Filho, que se encontram com um intercâmbio eterno de amor. Mas a perfeição da felicidade e da bondade não admite exclusivismos e obstinação; ao contrário, exige a eterna presença de uma terceira Pessoa, o Espírito Santo. O amor trinitário é participativo, concorde, e comporta superabundância de delícia, gozo de alegria incessante; isto é, Ricardo supõe que Deus é amor, chegando assim à Trindade das Pessoas, que é realmente a expressão lógica do fato de que Deus é amor. Contudo, Ricardo é consciente de que o amor, ainda que nos revele a essência de Deus e nos faça “compreender” o mistério da Trindade, é, no entanto, somente uma analogia para falar de um mistério que supera a mente humana e – poeta e místico como é – recorre também a outras imagens: compara, por exemplo, a divindade com um rio, com uma onda amorosa que brota do Pai, flui e volta a fluir no Filho, para ser depois felizmente difundida no Espírito Santo.
Queridos amigos, autores como Hugo e Ricardo de São Vítor elevam nossa alma à contemplação das realidades divinas. Ao mesmo tempo, a imensa alegria que nos proporcionam o pensamento, a admiração e o louvor da Santíssima Trindade, funda e sustenta o compromisso concreto de inspirar-nos neste modelo perfeito de comunhão e de amor para construir nossas relações humanas de cada dia. A Trindade é verdadeiramente comunhão perfeita! Como o mundo mudaria se nas famílias, nas paróquias e em toda outra comunidade as relações fossem vividas seguindo sempre o exemplo das três Pessoas Divinas, em que cada uma vive não somente com a outra, mas para a outra e na outra! Recordamos isso há alguns meses no Ângelus: “Somente o amor nos faz felizes, porque vivemos em relação e vivemos para amar e ser amados”  (L’Osservatore Romano., 8-9 junho 2009, p. 1). É o amor que realiza este incessante milagre: como na vida da Santíssima Trindade, a pluralidade se recompõe de unidade, em que tudo é complacência e alegria. Com Santo Agostinho, honrado pelos vitorinos, podemos exclamar também nós “Vides Trinitatem, si caritatem vides – contempla a Trindade, se vês a caridade” (De Trinitate VIII, 8,12).
[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]
Queridos irmãos e irmãs:
No século XII, a abadia de São Vítor, em Paris, contava entre os seus mestres Hugo e Ricardo, duas figuras exemplares de teólogos e filósofos crentes que se empenharam em mostrar a concórdia entre a razão e a fé. Hugo de São Vítor estimulava a uma sã curiosidade intelectual, considerando como o mais sábio quem tiver procurado aprender qualquer coisa de todos. Quem aprendeu o sentido da história descrito na Bíblia, sabe que as vicissitudes humanas não são guiadas por um destino cego, mas age nelas o Espírito Santo que suscita um diálogo maravilhoso dos homens com Deus, seu amigo. Deste Deus que é amor, fala Ricardo de São Vítor na sua obra sobre a Trindade. A divindade é como uma onda amorosa que jorra do Pai, flui e reflui no Filho para ser depois felizmente difusa no Espírito Santo. 

[Tradução: Aline Banchieri.
©Libreria Editrice Vaticana]

segunda-feira, 16 de maio de 2016

DOM BOSCO E O MISTERIOSO CÃO GRIGIO

O texto a seguir, parte de uma pergunta ntyeressante: os anjos da guarda podem disfarçar-se de animais para nos defender também fisicamente? E a resposta é sim, baseada no testemunho dos santos, que compõem o gradioso deposito da fé católica tradicional. Um exemplo esplendodo à citar é o caso do misterioso cão Grigio, de São Dom Bosco que era um grande cão que parecia um lobo e ao mesmo dócil e amigo, com um metro de altura, pêlo cinza, focinho alongado, e orelhas em pé” que em certas feitas, lhe apareceu em momentos cruciais livrando o santo dos ataques de bandidos e outros perigos. Deixemos de minúcias e passemos ao texto na íntegra que nos interessa!  

Fim de novembro de 1854. Numa noite escura e com muita neblina, D. Bosco estava voltando do centro da cidade, mais precisamente do Colégio eclesial. Para evitar ruas muito desertas, descia por aquela rua que vai do Santuário da Consolata até a Pequena Casa da Divina Providência.
Em certo ponto da estrada, percebeu que dois homens o precediam a pouca distância, regulando o próprio passo ao seu. Quando tentava ir para a calçada oposta para evitá-los, estes logo tratavam de pôr-se à sua frente. Não havia dúvida: eles não estavam bem intencionados.
O Santo tentou voltar para pôr-se a salvo em alguma casa próxima, mas não teve tempo, pois os dois, virando-se de repente e sem pronunciar uma palavra, o atacaram, cobrindo-lhe o rosto.
D. Bosco fez de tudo para não se deixar dominar. Abaixando-se rapidamente, conseguiu soltar a cabeça por um instante e passou a se defender energicamente.
Os agressores então tentaram prendê-lo com mais força e, para impedi-lo de gritar por socorro, amordaçaram-lhe a boca com um lenço.
don-bosco-and-grigio Por sorte, no meio daquela luta mortal, enquanto seu coração invocava o Senhor, de repente apareceu Grigio, que se pôs a latir com tanta força que seu latido não parecia o de um cão, nem sequer o de um lobo, mas o de um urso enfurecido. Não contente com isso, se lança contra um dos malfeitores e o obriga a largar o manto com o qual envolvia a cabeça do pobre padre, depois se joga sobre o outro e, mordendo-o, o derruba. Vendo isso, o primeiro logo trata de fugir, mas Grigio não permite que o faça e, saltando sobre suas costas, joga-o na lama. Feito isso, pára, e, sempre rosnando, passa a olhar ameaçadoramente para os dois patifes.
Então, de um momento para outro a cena muda e eles se põem a gritar:
- D. Bosco, por caridade... diga a ele que não nos morda! Piedade, misericórdia! Chame-o!
- Eu vou chamá-lo - respondeu o Santo -, mas vocês vão me deixar em paz.
- É claro, sem dúvida! Mas, por favor, chame-o logo!
- Grigio - disse D. Bosco -, venha cá!
E Grigio, obediente, se pôs a seu lado, deixando livres os malfeitores, que deram-se às pernas.
Apesar dessa inesperada defesa, D. Bosco não quis prosseguir o caminho até em casa. Entrou no vizinho Instituto do Cottolengo e, passada meia hora, refazendo-se do susto, tomou a rua do Oratório acompanhado por uma boa escolta.
(G. Bozzo, Flashes sugli angeli).

Muitos anos depois desse fato, D. Bosco estava nas montanhas da Ligúria e, perdido entre aqueles desfiladeiros, à noite, sem saber que direção tomar para chegar ao povoado, invoca o seu anjo da guarda. Eis que aquele mesmo cão Grigio que o havia libertado em Turim se aproximou, brincou com ele e o conduziu no caminho certo, até a casa a que D. Bosco queria chegar. Depois desapareceu.
***
Fonte:
Livro "Para Falar de Anjos", página 88

segunda-feira, 21 de março de 2016

AS TÊMPORAS: JEJUNS DA IGREJA NAS QUATRO ESTAÇÕES DO ANO

As Quatro Têmporas trata-se de tempos litúrgicos aos quais a Igreja dedica a penitência, a oração e a esmola. Provavelmente relacionada ao trabalho dos homens no campos, que tinham suas vidas mudadas de acordo com as Estações do Ano. Acredita-se que teriam surgido com a cristianização da Europa pagã por volta dos séculos III e IV. O Papa Gregório fixou as Têmporas da seguinte forma:

  • 3ª Semana do Advento (Têmporas do Advento)
  • 1ª Semana da quaresma (Têmporas da Quaresma)
  • Semana de Pentecostes (Têmporas de Pentecostes)
  • Semana do 17º Domingo depois de Pentecostes (Têmporas de Setembro)

Para termos uma noção mais simplificada sobre as têmporas, seria basicamente uma mini-quaresma, quatro vezes ao ano. Nesse período, dedicamos nossas práticas de piedade pedindo perdão pelos pecados cometidos, e em ação de graças pelos dons concedidos por Ele a nós.  

Há alguns bons textos que falam sobre as Têmporas, os quais queremos compartilhar com o leitor, para conhecimento e reflexão:
As Quatro Têmporas representam uma velha tradição, muito querida da Igreja romana. Quatro vezes no ano, na mudança das estações, se consagravam três dias da semana – quarta, sexta e sábado – ao jejum e à oração, a fim de evocar as bênçãos de Deus para a nova estação e para as Ordenações, que tinham lugar na vigília de sábado para domingo.

As Quatro Têmporas de Setembro são conjuntamente dias de jejum e momentos de jubilosa ação e graças. Lembram aos Judeus a dupla promulgação da Lei, à saída do Egito e depois do cativeiro da Babilônia. Lembram aos Cristãos a proteção permanente de Deus concedida a seu povo, e a sua libertação. A ação de graças pelas colheitas do ano vai unir-se à evocação dos antigos benefícios de Deus.

“Missal Romano Quotidiano”. Dom Gaspar Lefebvre e os Monges Beneditinos de S. André. Bruges, Bélgica. Edição Bíblica. Abadia de S. André, 1963, p. 21 e 670. 
* * *
Para iniciar de maneira mais piedosa as quatro estações do ano, já nos primeiros tempos eram celebradas as Têmporas. Estes dias são sempre a quarta-feira, a sexta e o sábado, e são dedicados ao jejum e à oração. Foram instituídos para agradecer a Deus as colheitas e para implorar novas bênçãos do Senhor nas searas futuras. O dia mais solene era o sábado e ainda hoje é o dia preferido para as ordenações sagradas. É portanto de sumo interesse para os fiéis que nestes dias implorem a Deus a dádiva de Pastores zelosos para o rebanho do Senhor. Além deste característico comum, as Têmporas ainda influem no tempo do ano em que são celebradas. As primeiras são na 3ª semana do Advento [depois de Santa Luzia – dia 13]; as segundas, na 2ª semana da Quaresma [primeira quarta-feira depois das Cinzas, ou seja, depois do 1º Domingo de Quaresma]; as terceiras, na Oitava de Pentecostes; e as últimas, sempre na quarta-feira depois de 14 de setembro [dia da Exaltação da Santa Cruz].

Missal Quotidiano”. Edição A. Dom Beda Keckeis O.S.B. Mosteiro São Bento. Bahia. 1947, pp. 17-18
* * *
Têmporas, jejuns da Igreja nas quatro Estações do ano, por tempo de três dias de uma semana em cada estação; a saber, quarta, sexta e sábado. Alguns atribuem a instituição dos três jejuns por ano aos Apóstolos; outros, ao Papa Calixto I. É certo que o jejum das quatro Estações do ano foi estabelecido na Igreja Romana no tempo de São Leão Papa; a saber, o da Primavera, na Quaresma; o do Estio (Verão), antes do Espírito Santo; o do Outono (lembre-se que se fala do hemisfério norte), no sétimo mês; e o do Inverno, no décimo mês. O Papa Gregório VII, no fim do século undécimo, ordenou que o jejum de Março se observaria na 1ª semana da Quaresma; o de Junho, na Oitava do Espírito Santo; e os de Setembro e Dezembro, nos dias em que se fazia antes. Os jejuns das Quatro Têmporas não foram instituídos somente para consagrar a Deus as quatro partes do ano, pela mortificação e a penitência, como diz S. Leão, e para alcançar as bênçãos de Deus nestas quatro Estações, mas também para implorar a graça do Espírito Santo nas Ordens dos Sacerdotes e Diáconos, que se faziam nos sábados destas Quatro Têmporas.

“Novo Dicionário das Línguas Portugueza e Franceza, com termos latinos...”. Pe. Joseph Marques. Lisboa. Francisco Luiz Ameno Editor. 1764. 1ª Edição, Tomo II, p. 711 (PDF)
* * *
O profeta Amós tinha anunciado a destruição de Jerusalém e a sua próxima reedificação. Com efeito, Nenemias reconduziu as tribos de Babilônia e fez reconstruir a cidade. Quando acabaram os trabalhos, reuniu todo o povo no primeiro dia do sétimo mês e disse-lhes: "Este é o dia do Senhor. Não vos contristeis, pois, porque a alegria do Senhor é a nossa fortaleza". A quarta-feira das têmporas de Setembro, que era outrora o sétimo mês do ano, recorda-nos o faustoso acontecimento da restauração de Jerusalém, na volta do cativeiro, que é a figura da nossa reconstrução em Deus por Jesus Cristo. E este júbilo de resgate anda unido com o recolhimento e a penitência, como a cor roxa dos paramentos o denuncia. A Igreja hoje nos convida ao jejum e à oração, para dominarmos por este meio o espírito da impureza e encontrarmos na Misericórdia Divina o remédio para as nossas faltas.
Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960
* * *

Foi o Papa Gregório VII (†1085) quem fixou, em 1078, as Têmporas da forma como descrito acima. As primeiras notícias sobre as Têmporas são dadas por Santo Filástrio, Bispo de Brescia (morto em 387 d.C.) (De haeres., 119), pondo-as entre as maiores festas cristãs. Eram chamadas de “ieiunium vernum”, “ieiunium aestivum”, “ieiunium autumnale” et “ieiunium hiemale”, (digiuno di primavera, d'estate, di autunno e d'inverno). De Roma, as Têmporas se difundiram em todo o Ocidente. A Igreja Ortodoxa nunca as observou. A Gallia (França) e a Espanha só as conheceram a partir do século VIII. Na Britannia (Inglaterra), surgiram curiosamente antes, e fontes cristãs atribuem o fato à presença de Santo Agostinho da Cantuária, um romano diretamente subordinado ao Papa Gregório Magno.

A regra que fixa a ordenação do clero nas Quatro Têmporas se encontra nos documentos tradicionalmente associados ao Papa Gelásio I (492-496). Nas Igreja primitiva, as ordenação ocorriam conforme a necessidade. Crê-se que Gelásio foi o primeiro que quis estabelecer as ordenações a tempos particulares. Encontra-se essa regra estabelecida por Egberto, Arcebispo de York, nos anos 735-766, e definitivamente sancionada como lei da Igreja no Pontificado de Papa Gregório VII, por volta de 1085. Basicamente, trata-se, como vimos, de uma “Miniquaresma”, quatro vezes ao ano, durante a qual nos dedicamos às práticas de piedade para pedirmos o perdão dos pecados cometidos e rezamos em ação de graças pelos dons que Deus nos concedeu.
Curiosidade: O tempura (lê-se tempurá), prato da culinária japonês, deve seu nome às Quatro Têmporas. Tradicionalmente, remonta ao século XVI, com os primeiros contatos entre japoneses e os marinheiros portugueses que levavam consigo missionários cristãos. Uma vez que nesse período os católicos comiam apenas verduras e peixe, e se dedicavam à oração, pediram aos habitantes locais que preparassem para eles um prato adequado às “tempora”. Disso surgiu o termo tempura, que os japoneses utilizam ainda hoje para esse prato. Há quem diga que o nome tenha surgido da palavra portuguesa “tempero”, ou seja, especiaria, mas é pouco provável, uma vez que vários pratos levavam “temperos” naquela época, principalmente porque não havia geladeiras e usavam-se os temperos para disfarçar o gosto das carnes que já estavam passadas.

Créditos ao autor: Texto original Giulia d'Amore - Blog "Pale Ideas"

quinta-feira, 10 de março de 2016

TEOLOGO, FREI ANTONIO MOSER É ASSASSINADO


Comunicamos com grande pesar, o falecimento de Frei Antonio Moser, assassinado na manha de ontem em tentativa de assassinato! Frei Moser foi um grande e influente sacerdote e teólogo, tive o prazer de assisti-lo, no lançamento de um dos livros do Monge Anselm Grun no Rio a alguns anos, sem dúvida uma perda inestimável e lamentável!

O franciscano de 75 anos, que era diretor da Editora Vozes e atuava na Diocese de Petrópolis (RJ), seguia em seu carro na pista sentido Rio de Janeiro quando foi abordado por assaltantes que estariam em uma moto e conseguiram fugir após o atentado. O crime ocorreu por volta das 6h10.
Mesmo baleado, o religioso conseguiu dirigir seu veículo até o acostamento. Entretanto, quando a equipe da concessionária que administra a rodovia chegou, ele já estava morto.

Segundo informou o site ACIDIGITAL Frei Antônio Moser, OFM., foi morto a tiros na manhã desta quarta-feira, na Rodovia Washington Luiz, na altura de Duque de Caxias (RJ). O conhecido teólogo foi baleado após uma tentativa de assalto.

O local foi isolado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) para a realização da perícia. O caso será investigado pela Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF).

Logo após a confirmação da morte do sacerdote, a Editora Vozes divulgou uma nota assinada por Frei Volney Berkenbrock, na qual comunicou “com imenso pesar o falecimento de Frei Antônio Moser”.
“Pedimos a todos e todas união e força neste momento inesperado e difícil e que possamos continuar unidos na fé e esperança da ressurreição”, diz o comunicado.

O franciscano seguia de Petrópolis para São Paulo, onde gravaria um programa na TV Canção Nova. Frei Antônio Moser, frade da Província da Imaculada Conceição do Brasil, era diretor presidente da Editora Vozes, professor de Teologia Moral e Bioética no Instituto Teológico Franciscano (ITF), em Petrópolis, pároco da paróquia de Santa Clara, na mesma cidade, e diretor de Centro Educacional Terra Santa. No ano passado, em outubro, participou como colaborador da Secretaria especial da XIV Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos. E, em dezembro, celebrou o jubileu de seus 50 anos de vida sacerdotal.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

E O "AJAYÔ" DE CARLINHOS BROW NO THE VOICE BRASIL?



 

Imagine você a cena, um "penteca" bem entusiasmado ou um "carismático" fervoroso, ao terminar sua apresentação no referido programa gritasse:

" - Louvado seja o Nosso Senhor Jesus Cristoooooo! ou " - A paz de Nosso Senhor esteja com todos!" ou ainda "Viva Nosso Senhor Jesus Cristo!!!"
 
E nesse momento a plateia toda respondesse em uníssono:

"- Para sempre seja louvadoooo" ou alguma jaculatória de resposta parecida.
 
Você imaginou?

Não, né? Porque a cena certamente sofreria alguns cortes na reedição, por respeito as demais religiões, sobretudo brasileiras de matriz africanas.

Mas aí você deve está me perguntando, o que tem a ver uma coisa com outra coisa.

Já respondo.

"AJAYÔ" tem a mesma força de significado, porem para o Candoblé e sua entidades, significa o sopro da saudação à Oxalá, mais especificamente "Que a paz de Orixá se faça presente entre nós!"
 
E o Brasil inteiro responde:
 
"Que assim seja!!!"

Oxalá e os Orixás: Segundo o site "Juntos no Candoblé", Dentro da Religião do Candomblé muitos  se confundem sobre o que é orixá Oxalá. E o sincretismo diz que Oxala é Jesus. Apesar de a imagem de Jesus Cristo ser figura obrigatoriamente em lugar de honra em todos os Centros, Terreiros ou Tendas de Umbanda, em local elevado, geralmente destacada com iluminação intencionalmente preparada, de modo a conformar uma espécie de aura de luz difusa à sua volta, a herança da tradição africana afirma que Oxalá cóexistiu com a formação do mundo e Oxalá ja era antes que Jesus o fosse. 

Oxalá é o Orixá masculino, de origem Ioruba Nagô, entidade amplamente cultuada no Brasil.

O Dialogo inter-religioso: Quando esse é o assunto, há muita confusão, entende-se que nesse dialogo, tudo é tolerável em busca da suposta "paz", e não é bem assim, pois se o acreditássemos, seria o mesmo que afirmar a relatividade de nossa própria religião. O diálogo só pode existir no pressuposto de que os dialogantes acreditam que é possível encontrar uma verdade comum, estão abertos a ela e veem o diálogo justamente como ferramenta para chegar a ela. Quando esse pressuposto não existe, o dialogo se torna apenas uma arma retórica para aniquilar o adversário ideológico.

Tendo por base as afirmações acima, o dialogo e o respeito é a melhor forma de se viver no mundo e na sociedade apesar de nossas convicções de fé divergentes, sendo até as vezes possível uma união ideológica ou política, para a defesa de um bem comum as partes, mas se estamos em busca da verdade, esse diálogo deve nos levar a ela, e ao método de Platão, "Verdade conhecida, Verdade obedecida!"

   
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