segunda-feira, 5 de novembro de 2018

O juiz, o padre, o filósofo e o pai da Laurinha


Ainda que a história "oficial" os negligencie, é possível, terei o prazer de contar para os meus netos, que esses quatro homens honrados redescobriram o Brasil, ou nos mostrou um Brasil paralelo que adormecia e urgia por despertar do infame pesadelo, e nos devolveu a esperança.

Um juiz incansável, destemido, que desafiou gigantes do sistema.

Um simples pároco de uma pequena freguesia do Mato Grosso, que através da internet, tornou-se diretor espiritual e conselheiro de fiéis do Brasil inteiro, que com docilidade indicava o caminho da verdade e suas ameaças.

Um filósofo, que despertou as mentes para a inteligência e o desejo pela verdade, custe ela o que custar.

E por fim, o pai da Laurinha, sem muitos atributos, sem muitos títulos, simplesmente um homem bom, que, surfando na onda, e é verdade, desses apelos, revelou-se o maior fenômeno de clamor popular jamais visto, que foi cravado no peito, aliás, um pouco abaixo do peito, o alto preço por defender a verdade e mexer no covil de serpentes e  mesmo assim não desanimou e tornou-se a personificação da esperança de um povo.

Obrigado Pe Paulo Ricardo,
Obrigado Prof. Olavo de Carvalho
Obrigado juiz Sérgio Moro
Obrigado Jair Bolsonaro!

Sobre Anjos, Demônios e a preguiça!

Caríssimo Teófilo,

Graça e Bem da parte do bondoso Deus!

Pedirei nessa correspondência, sinceras desculpas pelo o meu vulgo português descuidado, na literatura chamam de licença poética, um nome técnico que os linguistas encontraram para a preguiça e desleixo na escrita. O mancebo erra propositalmente ou por descuido, daí, lá vem os bajuladores dizer que ele pode, é a licença poética que esses canônicos se valem. Preferirei deter-me mais no conteúdo do que haverá de ser dito, e preocupar menos com a Gramática. Nosso amigo em comum, o escritor Samora, sempre faz-me a lisonja de lembrar de minha modesta habilidade de manejar a língua portuguesa e sua estrutura gramatical, chamando-me por vezes de “Cláudio, o gramático”, porem, acho que eu tenho sido mais um “Cláudio tomista” ultimamente. É claro que no sentido mais pobre da palavra, no sentido de “especulador”, em busca da verdade e “questionador”. No melhor sentido da palavra, desse, que é um adjetivo tão memorável, seria uma petulância me auto afirmar tomista.

Queria escrever-te no início dessa semana, quando terminava de ler a “Svmma Daemoniaca”, do reverendo padre Antonio Fortea, e um detalhe me saltou aos olhos e deu-me vontade de lhe comentar, mas a correria foi tamanha que acabei me esquecendo. Retomei a intensão da correspondência, quando na tarde de hoje, fui levar minha esposa ao confessionário, e após o atendimento, tomávamos uma xicara de café na casa do reverendo padre Eliney, em Ipatinga, e o mesmo comentou sobre você e sua enfim decisão de ir para o seminário.

Depois vamos ter a oportunidade de conversar pessoalmente e tão logo, demostrarei o quanto minha alma se alegrou com essa boa nova. Se for tentar descrevê-la aqui, além de delongar-me demasiadamente, não conseguirei expressá-la, só digo que uma conclusão, de muita saudosa expectativa, me veio ao coração ao entrar no carro e tomar direção de casa com minha esposa. Nossa amizade nasceu, naquele carro, naquele dia da missão em Brauninha, há alguns anos, e com a graça de Deus, vai culminar no altar do Cordeiro, aguardarei ansiosamente o dia em que servirei o altar do seu Sacrifício Eucarístico e juntos elevaremos o cálice de nossa Salvação, eu com o Sangue incruento e você com o Santíssimo Corpo de Nosso Senhor, eu como diácono da Santa Igreja e você como sacerdote segundo a Ordem de Melquizedech.

Mas vamos logo ao assunto! O mês de Setembro é um mês muitíssimo abençoado, já o seria apenas por ser o mês dedicado à santíssima palavra de Deus, mas é abrilhantado ainda mais as festas dos santos que nele celebramos, a citar, São Gregório Magno, São Lourenço, São Cipriano, São Vicente e São Jerônimo, e fechando com chave de ouro com os santos Arcanjos.

Caro “Teófilo”, sempre na festa de um santo, que tenho por devoção, eu sou acometido por um sentimento no mínimo intrigante e as vezes angustiante, me vêm a ideia de que estou em dívida com Deus, tudo que faço ou que fiz até hoje para a Igreja, parece ser uma gota nesse imenso oceano da hagiologia do calendário romano dos santos e dos mártires. São Jeronimo por exemplo, dizem os seus hagiólogos, que ele dedicou uma parte de sua vida à traduzir a bíblia para o Latim, a Vulgata, e a outra parte de sua vida dedicou-se à acese, penitencia e vida contemplativa. Ou seja, uma vida inteira em Deus. O que dizer de Santo Afonso de Ligório que entrou para o seminário com 09 anos, se formou em direito com 13 anos e se ordenou padre quase logo a após a sua pulberdade? (se não me falhe a memoria, tem muito tempo que li sua biografia, logo não considere tanto os números, pois como disse no início, minha correspondência hoje tem mais um desejo de comunicar do que se certificar com os dados. Seria como um fluxo de memorias.)

Dos dois santos citados, tanto um como o outro, não perdeu tempo na vida. De Santo Afonso, diz-se que esse não desperdiçou nem um minuto sequer de seu tempo, enquanto esteve nesse mundo. Imagine o quanto esses santos gritam aos meus ouvidos? Eu que perco tanto tempo com besteiras? Que me disperso tantas vezes com redes sóciais, tecnologias e smartfhones? Que mensagem não teria para mim, um homem que dedicou a metade de sua vida para traduzir os textos sagrados e torna-los acessíveis, enquanto eu sou tomado pelo sono, quando leio uma ou duas páginas de um livro? Já estou com vergonha de já ter demorado três semanas pra chegar a página 100 do livro que disse no início que estou lendo. Aliás, vou já comentar a parte da leitura que prometi fazer.

O reverendo padre Antônio Fortea, dentre outras inúmeras coisas interessantíssimas sobre as realidades espirituais que nos cercam, disse que os demônios realmente têm nomes, coisa que eu não imaginava ser verdade. Achava que era demônio e pronto. Ele citou os diversos nomes, a saber, Asmodeu, Lucifer (que na verdade é um adjetivo), Satã, Belzebu, dentre outros. Um nome que me chamou a atenção e motivou lhe escrever compartilhando é o demônio chamado “Meridiano”, você já ouviu falar dele? Segundo Fortea, o nome do capiroto, originou-se de uma tradução errada que São Jerônimo fez de um versículo do Salmo 91, que dizia no original, “não tenha medo da destruição que assola no sul” , Jerônimo traduziu, “não tenha medo do demônio meridianus” que tinha esse mesmo significado de “do sul” ou meio dia.

A partir daí Fortea afirma, que virou costume entre os ascetas, ao serem acometidos pela acedia, ou seja, a tentação diária, considerarem que existia um demônio que atacava ao meio dia, hora em que os monges estavam dispensados da oração e dos trabalhos físicos ou espiritual, resumindo, era a hora da folga, como minha vó dizia “que cabeça vazia é oficina do diabo” era nesses momentos que eles sofriam intensos ataques, e muitos deles deixaram a vida monástica por causa disso. O exorcista, ainda afirma que fora comprovado em exorcismos pelo mundo a fora, nos quais satanás fora entrevistado e obrigado a se identificar, que ele realmente existe e tem esse nome de Meridiano e assume essas características.

Resumindo, é o demônio da preguiça. Que nosso Senhor Jesus Cristo e a Divina misericórdia nos livre de tal desgraça. Mas uma coisa engraçada nisso tudo eu fiquei pensando. Se por um erro, São Jerônimo deu um nome à satanás, e ele o assumiu, tanto que já confessou de fato comprovado em exorcismos reconhecidos pela igreja, poderíamos pensar que um dia, teremos na história da Igreja, da qual estamos escrevendo e vendo-a ser escrita, que satanás assuma como nome próprio de o “encardido”? Nome um quanto tanto engraçado, o qual, o reverendo padre Leo, de saudosa memoria, mineiramente o apelidou? Eu quero ainda está vivo para ver e assistir a isso, pois será além de engraçado, muito humilhante para o demônio, quando o exorcista lhe perguntar: “Quem é você? Em nome da Santíssima Virgem, se identifique!”. E ele com aquela conhecida vós de derrota, ver-se obrigado a dizer:

“Eu sou o encardido!”

Despeço-me aqui amigo, estou rezando por você e por sua caminhada, vou te procurar para conversarmos mais sobre esse seu novo itinerário.

Salve Maria!


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

QUEM FORAM HUGO E RICARDO DE SÃO VITOR?

Intervenção do Papa Bento XVII na audiência geral do dia 25 de Novembro de 2019

Queridos irmãos e irmãs:

Nestas audiências das quartas-feiras, estou apresentando algumas figuras exemplares de crentes que se empenharam em mostrar a concórdia entre a religião e a fé e testemunhar, com sua vida, o anúncio do Evangelho.
Hoje quero falar-vos de Hugo e Ricardo de São Vítor. Ambos estão entre esses notáveis filósofos e teólogos conhecidos com o nome de vitorinos, porque viveram na abadia de São Vítor, em Paris, fundada no início do século XII por Guilherme de Champeaux. O próprio Guilherme foi um professor renomado, que conseguiu dar à sua abadia uma sólida identidade cultural. Em São Vítor, de fato, inaugurou-se uma escola para a formação dos monges, aberta também a estudantes externos, onde se realizou uma síntese feliz entre as duas formas de fazer teologia, das quais já falei em catequeses anteriores, isto é, a teologia monástica, orientada mais à contemplação dos mistérios da fé na Escritura, e da teologia escolástica, que utilizava a razão para tentar escrutar estes mistérios com métodos inovadores, de criar um sistema teológico.
Da vida de Hugo de São Vítor temos poucas notícias. São incertos as datas e o lugar do seu nascimento: talvez na Saxônia ou em Flandes. Sabe-se que ele chegou a Paris – a capital europeia da época – e transcorreu o resto dos seus dias na abadia de São Vítor, onde foi primeiro discípulo e depois professor. Já antes da sua morte, ocorrida em 1141, alcançou uma grande notoriedade e estima, até o ponto de ser chamado de “segundo Santo Agostinho”: como Agostinho, de fato, ele meditou muito sobre a relação entre fé e razão, entre ciências profanas e teologia.
Segundo Hugo de São Vítor, todas as ciências, além de ser úteis para a compreensão das Escrituras, têm um valor em si e devem ser cultivadas para engrandecer o saber do homem, como também para corresponder ao seu desejo de conhecer a verdade. Esta sã curiosidade intelectual o levou a recomendar aos estudantes que nunca deixassem de lado o desejo de aprender e, em seu tratado sobre metodologia do saber e de pedagogia, intitulado significativamente de Didascalicon (sobre o ensino), recomendava: “Aprende com prazer de todos o que não sabes. Será o mais sábio de todos quem tiver procurado aprender algo de todos. Quem recebe algo de todos, acaba convertendo-se no mais rico de todos” (Eruditiones Didascalicae, 3,14: PL 176,774).
A ciência da qual se ocupam os filósofos e teólogos dos vitorinos é particularmente a teologia, que requer, antes de mais nada, o estudo amoroso da Sagrada Escritura. Para conhecer a Deus, de fato, não se pode menos que partir do que o próprio Deus quis revelar de si mesmo através das Escrituras. Neste sentido, Hugo de São Vítor é um típico representante da teologia monástica, totalmente fundada sobre a exegese bíblica. Para interpretar a Escritura, propõe a tradicional articulação patrístico-medieval, isto é, o sentido histórico-literal, antes de mais nada, depois o alegórico e analógico e, finalmente, o moral. Trata-se de quatro dimensões do sentido da Escritura, que também hoje são redescobertos, porque se vê que no texto e na narração oferecida se esconde uma indicação mais profunda: o fio condutor da fé, que nos leva ao alto e nos guia sobre esta terra, ensinando-nos como viver.
Contudo, ainda respeitando estas quatro dimensões da Escritura, de modo original com relação aos seus contemporâneos, insiste – e isso é algo novo – na importância do sentido histórico-literal. Em outras palavras, antes de descobrir o valor simbólico, as dimensões mais profundas do texto bíblico, é necessário conhecer e aprofundar no significado da história narrada na Escritura: do contrário – adverte com um exemplo eficaz – se corre o risco de ser como os estudiosos de gramática que ignoram o alfabeto. Para quem conhece o sentido da história descrita na Bíblica, as circunstâncias humanas parecem marcadas pela Providência divina, segundo um desígnio bem ordenado. Assim, para Hugo de São Vítor, a história não é o resultado de um destino cego ou de um caso absurdo, como poderia parecer. Ao contrário, na história humana age o Espírito Santo, que suscita um maravilhoso diálogo dos homens com Deus, seu amigo. Esta visão teológica evidencia a intervenção surpreendente e salvífica de Deus, que realmente entra e age na história, quase se torna parte da nossa história, mas sempre salvaguardando e respeitando a liberdade e a responsabilidade do homem.
Para nosso autor, o estudo da Sagrada Escritura e do seu significado histórico-literal torna possível a teologia verdadeira e autêntica, isto é, a ilustração sistemática das verdades, conhecer sua estrutura, a ilustração dos dogmas da fé, que representa em sólida síntese no tratado De Sacramentis christianae fidei (Os sacramentos da fé cristã), no qual se encontra, entre outros elementos, uma definição de “sacramento” que, posteriormente aperfeiçoada por outros teólogos, contém traços ainda muito interessantes. “O sacramento – escreve – é um elemento corpóreo ou material proposto de forma estranha e sensível, que representa com seu parecido uma graça invisível e espiritual, significa-a, porque com este fim foi instituído, e a contém, porque é capaz de santificar” (9,2: PL 176,317). Por um lado, a visibilidade no símbolo, a “corporeidade” do dom de Deus, em que, contudo, por outro lado, esconde-se a graça divina que provém de uma história: o próprio Jesus Cristo criou os símbolos fundamentais.
Três são, portanto, os elementos que contribuem para a definição de um sacramento, segundo Hugo de São Vítor: a instituição por parte de Cristo, a comunicação da graça e a analogia entre o elemento visível, o material, e o elemento invisível, que são os demais dons divinos. Trata-se de uma visão muito próxima da sensibilidade contemporânea, porque os sacramentos são apresentados com uma linguagem composta por símbolos e imagens capazes de falar imediatamente ao coração dos homens. É importante também hoje que os animadores litúrgicos, particularmente os sacerdotes, valorizem com sabedoria pastoral os sinais próprios dos ritos sacramentais – esta visibilidade e tangibilidade da Graça –, cuidando atentamente da sua catequese, para que cada celebração dos sacramentos seja vivida por todos os fiéis com devoção, intensidade e alegria espiritual.
Um digno discípulo de Hugo de São Vítor é Ricardo, procedente da Escócia. Ele foi prior da abadia de São Vítor entre 1162 e 1173, ano de sua morte. Também Ricardo, naturalmente, designa um papel fundamental ao estudo da Bíblia, mas, ao contrário do seu mestre, privilegia o sentido alegórico, o significado simbólico da Escritura, com o qual, por exemplo, interpreta a figura veterotestamentária de Benjamim, filho de Jacó, como símbolo da contemplação e cume da vida espiritual.
Ricardo trata deste tema nos textos Benjamim menor e Benjamim maior, nos quais propõe aos fiéis um caminho espiritual que convida antes de mais nada a exercitar as diversas virtudes, aprendendo a disciplinar e a ordenar com a razão os sentimentos e os movimentos interiores afetivos e emotivos. Somente quando o homem alcança o equilíbrio e a maturidade humana neste campo é que está preparado para entrar na contemplação, que Ricardo define como “um olhar profundo e puro da alma dirigido às maravilhas da sabedoria, associada ao um senso extático de assombro e de admiração” (Benjamim Maior 1,4: PL 196,67).
A contemplação é, portanto, o ponto de chegada, o resultado de um árduo caminho, que comporta o diálogo entre a fé e a razão, isto é – mais uma vez – um discurso teológico. A teologia parte das verdades que são objeto da fé, mas tenta aprofundar seu conhecimento com o uso da razão, apropriando-se do dom da fé. Esta aplicação do raciocínio à compreensão da fé se pratica de modo convincente na obra prima de Ricardo, um dos grandes livros da história, o De Trinitate (A Trindade).
Nos 6 livros que o compõem, reflete com agudeza sobre o mistério de Deus uno e trino. Segundo nosso autor, dado que Deus é amor, a única substância divina comporta comunicação, oblação e dileção entre duas Pessoas, o Pai e o Filho, que se encontram com um intercâmbio eterno de amor. Mas a perfeição da felicidade e da bondade não admite exclusivismos e obstinação; ao contrário, exige a eterna presença de uma terceira Pessoa, o Espírito Santo. O amor trinitário é participativo, concorde, e comporta superabundância de delícia, gozo de alegria incessante; isto é, Ricardo supõe que Deus é amor, chegando assim à Trindade das Pessoas, que é realmente a expressão lógica do fato de que Deus é amor. Contudo, Ricardo é consciente de que o amor, ainda que nos revele a essência de Deus e nos faça “compreender” o mistério da Trindade, é, no entanto, somente uma analogia para falar de um mistério que supera a mente humana e – poeta e místico como é – recorre também a outras imagens: compara, por exemplo, a divindade com um rio, com uma onda amorosa que brota do Pai, flui e volta a fluir no Filho, para ser depois felizmente difundida no Espírito Santo.
Queridos amigos, autores como Hugo e Ricardo de São Vítor elevam nossa alma à contemplação das realidades divinas. Ao mesmo tempo, a imensa alegria que nos proporcionam o pensamento, a admiração e o louvor da Santíssima Trindade, funda e sustenta o compromisso concreto de inspirar-nos neste modelo perfeito de comunhão e de amor para construir nossas relações humanas de cada dia. A Trindade é verdadeiramente comunhão perfeita! Como o mundo mudaria se nas famílias, nas paróquias e em toda outra comunidade as relações fossem vividas seguindo sempre o exemplo das três Pessoas Divinas, em que cada uma vive não somente com a outra, mas para a outra e na outra! Recordamos isso há alguns meses no Ângelus: “Somente o amor nos faz felizes, porque vivemos em relação e vivemos para amar e ser amados”  (L’Osservatore Romano., 8-9 junho 2009, p. 1). É o amor que realiza este incessante milagre: como na vida da Santíssima Trindade, a pluralidade se recompõe de unidade, em que tudo é complacência e alegria. Com Santo Agostinho, honrado pelos vitorinos, podemos exclamar também nós “Vides Trinitatem, si caritatem vides – contempla a Trindade, se vês a caridade” (De Trinitate VIII, 8,12).
[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]
Queridos irmãos e irmãs:
No século XII, a abadia de São Vítor, em Paris, contava entre os seus mestres Hugo e Ricardo, duas figuras exemplares de teólogos e filósofos crentes que se empenharam em mostrar a concórdia entre a razão e a fé. Hugo de São Vítor estimulava a uma sã curiosidade intelectual, considerando como o mais sábio quem tiver procurado aprender qualquer coisa de todos. Quem aprendeu o sentido da história descrito na Bíblia, sabe que as vicissitudes humanas não são guiadas por um destino cego, mas age nelas o Espírito Santo que suscita um diálogo maravilhoso dos homens com Deus, seu amigo. Deste Deus que é amor, fala Ricardo de São Vítor na sua obra sobre a Trindade. A divindade é como uma onda amorosa que jorra do Pai, flui e reflui no Filho para ser depois felizmente difusa no Espírito Santo. 

[Tradução: Aline Banchieri.
©Libreria Editrice Vaticana]

segunda-feira, 16 de maio de 2016

DOM BOSCO E O MISTERIOSO CÃO GRIGIO

O texto a seguir, parte de uma pergunta ntyeressante: os anjos da guarda podem disfarçar-se de animais para nos defender também fisicamente? E a resposta é sim, baseada no testemunho dos santos, que compõem o gradioso deposito da fé católica tradicional. Um exemplo esplendodo à citar é o caso do misterioso cão Grigio, de São Dom Bosco que era um grande cão que parecia um lobo e ao mesmo dócil e amigo, com um metro de altura, pêlo cinza, focinho alongado, e orelhas em pé” que em certas feitas, lhe apareceu em momentos cruciais livrando o santo dos ataques de bandidos e outros perigos. Deixemos de minúcias e passemos ao texto na íntegra que nos interessa!  

Fim de novembro de 1854. Numa noite escura e com muita neblina, D. Bosco estava voltando do centro da cidade, mais precisamente do Colégio eclesial. Para evitar ruas muito desertas, descia por aquela rua que vai do Santuário da Consolata até a Pequena Casa da Divina Providência.
Em certo ponto da estrada, percebeu que dois homens o precediam a pouca distância, regulando o próprio passo ao seu. Quando tentava ir para a calçada oposta para evitá-los, estes logo tratavam de pôr-se à sua frente. Não havia dúvida: eles não estavam bem intencionados.
O Santo tentou voltar para pôr-se a salvo em alguma casa próxima, mas não teve tempo, pois os dois, virando-se de repente e sem pronunciar uma palavra, o atacaram, cobrindo-lhe o rosto.
D. Bosco fez de tudo para não se deixar dominar. Abaixando-se rapidamente, conseguiu soltar a cabeça por um instante e passou a se defender energicamente.
Os agressores então tentaram prendê-lo com mais força e, para impedi-lo de gritar por socorro, amordaçaram-lhe a boca com um lenço.
don-bosco-and-grigio Por sorte, no meio daquela luta mortal, enquanto seu coração invocava o Senhor, de repente apareceu Grigio, que se pôs a latir com tanta força que seu latido não parecia o de um cão, nem sequer o de um lobo, mas o de um urso enfurecido. Não contente com isso, se lança contra um dos malfeitores e o obriga a largar o manto com o qual envolvia a cabeça do pobre padre, depois se joga sobre o outro e, mordendo-o, o derruba. Vendo isso, o primeiro logo trata de fugir, mas Grigio não permite que o faça e, saltando sobre suas costas, joga-o na lama. Feito isso, pára, e, sempre rosnando, passa a olhar ameaçadoramente para os dois patifes.
Então, de um momento para outro a cena muda e eles se põem a gritar:
- D. Bosco, por caridade... diga a ele que não nos morda! Piedade, misericórdia! Chame-o!
- Eu vou chamá-lo - respondeu o Santo -, mas vocês vão me deixar em paz.
- É claro, sem dúvida! Mas, por favor, chame-o logo!
- Grigio - disse D. Bosco -, venha cá!
E Grigio, obediente, se pôs a seu lado, deixando livres os malfeitores, que deram-se às pernas.
Apesar dessa inesperada defesa, D. Bosco não quis prosseguir o caminho até em casa. Entrou no vizinho Instituto do Cottolengo e, passada meia hora, refazendo-se do susto, tomou a rua do Oratório acompanhado por uma boa escolta.
(G. Bozzo, Flashes sugli angeli).

Muitos anos depois desse fato, D. Bosco estava nas montanhas da Ligúria e, perdido entre aqueles desfiladeiros, à noite, sem saber que direção tomar para chegar ao povoado, invoca o seu anjo da guarda. Eis que aquele mesmo cão Grigio que o havia libertado em Turim se aproximou, brincou com ele e o conduziu no caminho certo, até a casa a que D. Bosco queria chegar. Depois desapareceu.
***
Fonte:
Livro "Para Falar de Anjos", página 88

segunda-feira, 21 de março de 2016

AS TÊMPORAS: JEJUNS DA IGREJA NAS QUATRO ESTAÇÕES DO ANO

As Quatro Têmporas trata-se de tempos litúrgicos aos quais a Igreja dedica a penitência, a oração e a esmola. Provavelmente relacionada ao trabalho dos homens no campos, que tinham suas vidas mudadas de acordo com as Estações do Ano. Acredita-se que teriam surgido com a cristianização da Europa pagã por volta dos séculos III e IV. O Papa Gregório fixou as Têmporas da seguinte forma:

  • 3ª Semana do Advento (Têmporas do Advento)
  • 1ª Semana da quaresma (Têmporas da Quaresma)
  • Semana de Pentecostes (Têmporas de Pentecostes)
  • Semana do 17º Domingo depois de Pentecostes (Têmporas de Setembro)

Para termos uma noção mais simplificada sobre as têmporas, seria basicamente uma mini-quaresma, quatro vezes ao ano. Nesse período, dedicamos nossas práticas de piedade pedindo perdão pelos pecados cometidos, e em ação de graças pelos dons concedidos por Ele a nós.  

Há alguns bons textos que falam sobre as Têmporas, os quais queremos compartilhar com o leitor, para conhecimento e reflexão:
As Quatro Têmporas representam uma velha tradição, muito querida da Igreja romana. Quatro vezes no ano, na mudança das estações, se consagravam três dias da semana – quarta, sexta e sábado – ao jejum e à oração, a fim de evocar as bênçãos de Deus para a nova estação e para as Ordenações, que tinham lugar na vigília de sábado para domingo.

As Quatro Têmporas de Setembro são conjuntamente dias de jejum e momentos de jubilosa ação e graças. Lembram aos Judeus a dupla promulgação da Lei, à saída do Egito e depois do cativeiro da Babilônia. Lembram aos Cristãos a proteção permanente de Deus concedida a seu povo, e a sua libertação. A ação de graças pelas colheitas do ano vai unir-se à evocação dos antigos benefícios de Deus.

“Missal Romano Quotidiano”. Dom Gaspar Lefebvre e os Monges Beneditinos de S. André. Bruges, Bélgica. Edição Bíblica. Abadia de S. André, 1963, p. 21 e 670. 
* * *
Para iniciar de maneira mais piedosa as quatro estações do ano, já nos primeiros tempos eram celebradas as Têmporas. Estes dias são sempre a quarta-feira, a sexta e o sábado, e são dedicados ao jejum e à oração. Foram instituídos para agradecer a Deus as colheitas e para implorar novas bênçãos do Senhor nas searas futuras. O dia mais solene era o sábado e ainda hoje é o dia preferido para as ordenações sagradas. É portanto de sumo interesse para os fiéis que nestes dias implorem a Deus a dádiva de Pastores zelosos para o rebanho do Senhor. Além deste característico comum, as Têmporas ainda influem no tempo do ano em que são celebradas. As primeiras são na 3ª semana do Advento [depois de Santa Luzia – dia 13]; as segundas, na 2ª semana da Quaresma [primeira quarta-feira depois das Cinzas, ou seja, depois do 1º Domingo de Quaresma]; as terceiras, na Oitava de Pentecostes; e as últimas, sempre na quarta-feira depois de 14 de setembro [dia da Exaltação da Santa Cruz].

Missal Quotidiano”. Edição A. Dom Beda Keckeis O.S.B. Mosteiro São Bento. Bahia. 1947, pp. 17-18
* * *
Têmporas, jejuns da Igreja nas quatro Estações do ano, por tempo de três dias de uma semana em cada estação; a saber, quarta, sexta e sábado. Alguns atribuem a instituição dos três jejuns por ano aos Apóstolos; outros, ao Papa Calixto I. É certo que o jejum das quatro Estações do ano foi estabelecido na Igreja Romana no tempo de São Leão Papa; a saber, o da Primavera, na Quaresma; o do Estio (Verão), antes do Espírito Santo; o do Outono (lembre-se que se fala do hemisfério norte), no sétimo mês; e o do Inverno, no décimo mês. O Papa Gregório VII, no fim do século undécimo, ordenou que o jejum de Março se observaria na 1ª semana da Quaresma; o de Junho, na Oitava do Espírito Santo; e os de Setembro e Dezembro, nos dias em que se fazia antes. Os jejuns das Quatro Têmporas não foram instituídos somente para consagrar a Deus as quatro partes do ano, pela mortificação e a penitência, como diz S. Leão, e para alcançar as bênçãos de Deus nestas quatro Estações, mas também para implorar a graça do Espírito Santo nas Ordens dos Sacerdotes e Diáconos, que se faziam nos sábados destas Quatro Têmporas.

“Novo Dicionário das Línguas Portugueza e Franceza, com termos latinos...”. Pe. Joseph Marques. Lisboa. Francisco Luiz Ameno Editor. 1764. 1ª Edição, Tomo II, p. 711 (PDF)
* * *
O profeta Amós tinha anunciado a destruição de Jerusalém e a sua próxima reedificação. Com efeito, Nenemias reconduziu as tribos de Babilônia e fez reconstruir a cidade. Quando acabaram os trabalhos, reuniu todo o povo no primeiro dia do sétimo mês e disse-lhes: "Este é o dia do Senhor. Não vos contristeis, pois, porque a alegria do Senhor é a nossa fortaleza". A quarta-feira das têmporas de Setembro, que era outrora o sétimo mês do ano, recorda-nos o faustoso acontecimento da restauração de Jerusalém, na volta do cativeiro, que é a figura da nossa reconstrução em Deus por Jesus Cristo. E este júbilo de resgate anda unido com o recolhimento e a penitência, como a cor roxa dos paramentos o denuncia. A Igreja hoje nos convida ao jejum e à oração, para dominarmos por este meio o espírito da impureza e encontrarmos na Misericórdia Divina o remédio para as nossas faltas.
Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960
* * *

Foi o Papa Gregório VII (†1085) quem fixou, em 1078, as Têmporas da forma como descrito acima. As primeiras notícias sobre as Têmporas são dadas por Santo Filástrio, Bispo de Brescia (morto em 387 d.C.) (De haeres., 119), pondo-as entre as maiores festas cristãs. Eram chamadas de “ieiunium vernum”, “ieiunium aestivum”, “ieiunium autumnale” et “ieiunium hiemale”, (digiuno di primavera, d'estate, di autunno e d'inverno). De Roma, as Têmporas se difundiram em todo o Ocidente. A Igreja Ortodoxa nunca as observou. A Gallia (França) e a Espanha só as conheceram a partir do século VIII. Na Britannia (Inglaterra), surgiram curiosamente antes, e fontes cristãs atribuem o fato à presença de Santo Agostinho da Cantuária, um romano diretamente subordinado ao Papa Gregório Magno.

A regra que fixa a ordenação do clero nas Quatro Têmporas se encontra nos documentos tradicionalmente associados ao Papa Gelásio I (492-496). Nas Igreja primitiva, as ordenação ocorriam conforme a necessidade. Crê-se que Gelásio foi o primeiro que quis estabelecer as ordenações a tempos particulares. Encontra-se essa regra estabelecida por Egberto, Arcebispo de York, nos anos 735-766, e definitivamente sancionada como lei da Igreja no Pontificado de Papa Gregório VII, por volta de 1085. Basicamente, trata-se, como vimos, de uma “Miniquaresma”, quatro vezes ao ano, durante a qual nos dedicamos às práticas de piedade para pedirmos o perdão dos pecados cometidos e rezamos em ação de graças pelos dons que Deus nos concedeu.
Curiosidade: O tempura (lê-se tempurá), prato da culinária japonês, deve seu nome às Quatro Têmporas. Tradicionalmente, remonta ao século XVI, com os primeiros contatos entre japoneses e os marinheiros portugueses que levavam consigo missionários cristãos. Uma vez que nesse período os católicos comiam apenas verduras e peixe, e se dedicavam à oração, pediram aos habitantes locais que preparassem para eles um prato adequado às “tempora”. Disso surgiu o termo tempura, que os japoneses utilizam ainda hoje para esse prato. Há quem diga que o nome tenha surgido da palavra portuguesa “tempero”, ou seja, especiaria, mas é pouco provável, uma vez que vários pratos levavam “temperos” naquela época, principalmente porque não havia geladeiras e usavam-se os temperos para disfarçar o gosto das carnes que já estavam passadas.

Créditos ao autor: Texto original Giulia d'Amore - Blog "Pale Ideas"
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