sábado, 16 de agosto de 2014

"AS PIPAS E OS RELACIONAMENTOS: 'DAR CORDAS' OU ADMINISTRAR OS VENTOS?"



CRÔNICA: Empinar pipas é um esporte para mim, apesar de pouca prática, um tanto quanto intrigante, acho que é devido ao fato de colocarmos um objeto feito de plástico e bambu para voar, sendo que a possibilidade de rasgar o céu e alçar voo faz parte do imaginário de todo homem, mas o angustia saber que lhe foi privada essa possibilidade por natureza definitiva, afinal de contas, não fomos criados com um par de asas como os pássaros. Voar é um privilégio dado aos pássaros.

Consideremos que a pipa já esteja pronta. Para que o nosso texto não se delongue demasiadamente. A pipa pode ser com ou sem rabiola, não faz diferença, e o dia está belo. Num verão de ventos uivantes, que assubiam aos nossos ouvidos convidando-nos a brincar um pouco num campo ou parque, fora do alcance da rede elétrica. O maior desafio do esporte é manter a pipa no céu e fazê-la, quando possível, bailar para um lado e para o outro, exibindo sua beleza. Quando a corda pesa em nossas mãos, é sinal que o vento pede pra dar corda, para que a pipa vá ainda mais longe. Dar cordas quando o vento pede até uma criança de três anos pode fazer, pois basta segurar firme o carretel de linha e aponta-lo para o alto e deixar que o próprio vento faça o seu papel, descarregando a linha e levando a pipa.

O desafio mesmo é administrar os ventos, saber o momento exato de dar cordas ou de puxá-las. É saber que há momentos em que podemos deixa-la ir, partir e não permitir que esse “descarrêgo” de linhas não seja tanto ao ponto de ela chegar ao chão ou se agarrar em alguma arvore ou edifício. Também é desafio de quem pratica tal esporte, fazê-la bailar no céu. A beleza da pipa está no espetáculo pirotécnico que ela é capaz de fazer, como se tivesse mostrando ao seu dono pra quê que veio ao mundo. Quando o vento se vai, ou se cansou de brincar, é hora da parte mais chata, que é puxar a pipa, enrolar a linha, desembaraçar os nós.

É mais ou menos igual em nossos relacionamentos. E quando eu o digo, digo-o de forma geral, relacionamentos entre pais e filhos, esposos e esposas, entre amigos, entre colegas de trabalho e etc. As pipas e os relacionamentos têm mais em comum do que possa calcular nossa vã psicologia. Devemos compreender que a centralidade das soluções dos nossos conflitos não pode está no “dar cordas”, algo que as pipas nos ensinam que não precisa de muitos esforços. Nosso desafio para ressaltar a beleza construtiva que pode haver nos relacionamentos sadios é manter a pipa no alto, ou seja, administrar bem os ventos e ter a temperança de bailar por entre eles, ainda que nos desafiem na maioria do tempo. Muitos interpretam os ventos de nossas vidas como algo ruim. Que dirá a tempestade. Mas sem os ventos não há pipas no alto, e sem os desafios não há relacionamentos maduros. 

Para concluir, antes que se torne enfadonho, e você desista de ler o texto até o fim, ressalto que há algo de maior exigência para os relacionamentos do que para o esporte das pipas. Um preguiçoso empina a pipa e quando se cansa, toma entre duas, uma decisão cômoda; ou ele arrebenta a linha e se desfaz de tudo e vai embora descansar, sabendo que na próxima semana pode ir ao mercado e comprar quantas linhas e pipas novas quiser, ou ele puxa a pipa, sem a preocupação de enrolá-la no carretel, aproveita a pipa e se desfaz das linhas que ha essa altura está cheia de nós. Nos relacionamentos não há mercados, não há como arrebentar a linha. Ou puxamos a linha com o cuidado de enrolá-la ao carretel, ou pacientemente gastemos um pouco mais de tempo para desfazer os nós causados pela presa de puxar as pipas. 

Devemos gastar tempo, paciência, meditação e oração para solucionar os nossos conflitos, não podemos ser indiferentes a eles, sem dar a importância que lhe é devida. Assim sendo, o céu de nossas vidas precisa ser enfeitado com as pipas dos relacionamentos sadios, de cores diversas e que dão mais brilho aos nossos regaços.
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