quarta-feira, 5 de março de 2014

UM ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA E A ESCURIDÃO



A vida de Clara parecia a placa de memória de um computador com infinitas capacidades de armazenamento em giga bytes. Era religiosamente programada e fiel a esse cronograma. Clara acordava todos os dias no mesmo horário, sem precisar despertador. Às seis da manha, ligava seu rádio à pilha bem baixo para não incomodar o marido. Do rádio se ouvia a voz rouca de um locutor que dizia: 

- “Hora da Ave Maria!”. 

Ela colocava as peças de roupa suja na bacia, ligava a torneira, enquanto jogava no bojo do tanque os restos do café de ontem, e colocava a agua pra ferver.

O Manuel padeiro gritava: - “Pães frescos!” – Ela imediatamente pegava e os colocava a mesa já cortados e com manteiga. O marido acordava as Sete e Quarenta e Cinco e já encontrava tudo posto à mesa, roupas passadas e uma mulher distante em pensamentos, mas de uma prontidão de invejar as freiras. Quando o marido batia as portas às costas, para ir trabalhar, Clara lavava as roupas, limpava a casa, tratava dos gatos entre uma coisa ou outra, afazeres menores que não gastarei a tinta de minha caneta esferográfica para descrevê-los, para não deixar o conto chato, e podem escrever o que vou dizer! Esses fatos eram tão menores que o leitor não sentirá falta de não tê-los lido.

A noite Clara não dormia, a noite Clara chorava.

Clara todos os dias quando às Dez horas da manhã ia ao supermercado, cumprimentava alguns poucos das circunvizinhanças desenhando um sorriso no rosto. - “Bom dia!”. Respondiam –na: – “Bom dia pra você também! Se apressava até o próximo balcão, para não ter que ver e cumprimentar outras pessoas e ter que forçar sorrisos pra todos.

Num desses dias, quando saía de casa, se deparou com um misterioso homem cego, que a fez reduzir os passos a fim de que pudesse repará-lo. Ela não conseguia esconder a curiosidade de assistir um cego “se virar” sozinho numa agitada avenida. Ela parou atônita enquanto ele se aproximava. Clara parecia aliviada pelo fato de poder observar o moço tão de perto sem que ele pudesse vê-la. Por causa da curiosidade ela não conseguia se mover nem ao menos em pensamento. 

Com sua bengala o homem tateava o chão da calçada e andava, quando a bengala tocou levemente a ponta do sapato preto de Clara. Levantando a cabeça, fitou com os óculos escuros os olhos da moça e disse:

- “Bom dia minha cara jovem, como tem passado?” No susto Clara responde: “ Bem obrigado!” O silencio mais uma vez paira sobre o cenário de um dia frio do mês de Março. Aquelas palavras invadiram a alma de Clara, em seu rosto uma expressão de espanto, que se o leitor pudesse ver, teria a impressão de estar diante de uma cena de um filme de Almodovar. Como pode uma simples frase causar tantas manifestações de desconforto? Até aquele momento, Clara nunca tinha pensado em si mesma, nunca tinha se olhado no espelho, e nunca tinha tempo para refletir sobre sua própria vida. Ao ouvir o cego lhe perguntar como estava passando os dias de sua vida à fez, pela primeira vez olhar para dentro de si mesma.

E Clara chorou.

As lágrimas que agora corriam no rosto rosado da jovem moça eram por perceber que todo o tempo de sua vida, minuto por minuto, foram gastos, como que processados matematicamente, sem nem uma vírgula de vivacidade. Depois que chorou, a mulher se sentiu muito bem, como nunca se sentira antes. Enquanto mergulhava em pensamentos, o cego se foi ao clarão do sol que despontava radiantemente, na enfumaçada Avenida Nigth Street.

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