terça-feira, 19 de novembro de 2013

MISSA DA CONSCIÊNCIA NEGRA: UMA ANÁLISE CRÍTICA DO PONTO DE VISTA LITÚRGICO E ANTROPOLÓGICO

Tentarei uma reflexão crítica do ponto de vista teórico sobre a Missa da Consciência Negra, como sistema de cotas e a tentativa de ser o principal instrumento de inculturação e inclusão social nas comunidades católicas. Em minha formação acadêmica tive o privilégio de ser membro da primeira turma do curso de Letras do Unileste a ter na grade curricular as disciplinas Literaturas Negras e Africanas que passaram a ser obrigatórias no auge das discussões dos movimentos de negritude e contra as desigualdades raciais. Tive a oportunidade de me especializar sobre gêneros, raças e etnias na pós graduação e atualmente iniciei minha dissertação para o Mestrado sobre a construção do conceito de raça já no período colonial através dos sermões de Padre Antonio Vieira. Tentarei contribuir nesse texto com os meus conhecimentos de Teologia Pastoral  e Moral católica agregados a esses conhecimentos teóricos de minha pesquisa acadêmica para revermos nosso posicionamento quanto a essa prática.

 Para termos um breve histórico, o dia da consciência negra é comemorado em todo o Brasil no dia 20 de Novembro, algumas regiões têm esse dia, como parte principal das atividades da semana da consciência negra que se inicia no dia 16 até o dia 25 de Novembro. A data comemorativa vem ganhando força cada vez maior pelo país como um forte marco das reflexões sobre a agenda das políticas públicas das desigualdades entre negros, pardos e mestiços. Não há dúvidas que essas reflexões são necessárias para os nossos dias, temos uma dívida histórica com o negro, o fim da escravidão no Brasil, que chegou atrasado em relação ao mundo, não significou nem de longe o reconhecimento e a reparação das inúmeras perdas que foram impostas à população negra desde esse período. Ainda é dramática as condições de oportunidades de trabalho para a mulher negra e aumentam os números de homicídios contra esse tecido da sociedade.

Há uma tentação em se pensar que os sistemas de cotas para negros em escolas universitárias e outros setores da sociedade é uma solução suficiente para sanar as dívidas com a população negra, na verdade essa é uma ação reparadora do problema existente, como um medicamento para uma ferida já aberta, apesar de todos os benefícios há de se reconhecer que essa ação política não age na raiz do problema. A raiz do problema é muito mais profunda, está nas consciências, que ainda insistem em mascarar o preconceito, a discriminação e o sentimento de superioridade da cor branca sobre o negro. Sem contar que esses indivíduos são evidenciados muitas vezes nas salas de aulas como “os bolsistas” ou “cotistas negros”. Se as mentes não mudam as opiniões e sentimentos racistas, esses universitários sairão das universidades graduados e ainda vítimas dos mesmos preconceitos de outrora.

Essa mesma ideologia está subentendido na prática pastoral de se celebrar Missas da Consciência Negra, mesmo que não tenham a intenção expressa, a Igreja com isso, está  reconhecendo uma tentativa de reparação dos excessos e das incompreensões quanto a cultura e os costumes do negro africano em sua colonização e na catequização em terras de Santa Cruz, tentando assim inculturar os seus costumes, credos e sua cultura ao culto católico. O que muitas vezes não se leva em consideração é que a Santa  Missa  não é o lugar apropriado, ela é um ato solene com que os católicos celebram o sacrifício de Jesus Cristo na cruz, recordando a Última Ceia.  A missa é uma particularidade da religião católica não deve nunca conter qualquer fragmento sincretista, nela todos nós batizados somos chamados e acolhidos como filhos, sem privilégios e sem desigualdades. A Congregação Para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, através de seu documento “Redemptionis sacramentum” (nos parágrafos 183 e 184) recomenda que o culto eucarístico jamais sofra adequações para evidenciar um grupo ou outro e muito menos sirva como palco de reinvidicações políticas seja em qualquer esfera, é o que o documento chama de favoritismo, a missa não é do negro, não é do branco, não é do sertanejo, é de todos nós batizados.


A Consciência Negra pode e deve ter seu espaço garantido para as reflexões nas comunidades eclesiais, não precisa ser somente no mês de Novembro, e deveria ser criado espaços de debates, mesas redonda ou simpósios abordando a temática, mas em outro momento que não seja a Santa Missa, e mais do que isso, como testemunhas dos ensinamentos de Cristo devemos ser os primeiros a renunciar qualquer tipo de marginalização do negro, auxiliando-o a superar o atraso social devido aos prejuízos desde a escravidão inserindo-o na vida eclesial e social.
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