quinta-feira, 18 de outubro de 2012

DOM MARCEL LEFEBVRE: UM TRADICIONALISTA INCOMPREENDIDO PELO TRADICIONALISMO

Por Claudio Roberto da Silva
 
É comum casos em que a fundação distancia do fundador, assim como a criatura do criador e assim por diante. Segundo os teóricos da análise do discurso isso sempre vai acontecer enquanto o mundo for mundo e o homem ter a capacidade de pensar, o qual, por conseguinte se difere entre todos os animais terrestres. São situações em que um discurso é proferido, ou escrito, e a partir de então o texto já não é mais de posse do locutor e sim dos que dele se servirem. É claro que essa concepção é muito válida na análise do discurso, e não possui prestigio no campo da religião, sobretudo no catolicismo, pois nem sempre faz bem interpretações distorcidas do original. Talvez seja o que tem ocorrido com o movimento dos tradicionalistas liderados por Dom Marciel Lefebvre dentro da Igreja católica.
Considerado por muitos como o maior e mais influente personagem tradicionalista pós conciliar, Dom Lefebvre, causou diversas polemicas e incompreensões após se posicionar contra os direcionamentos tomados pela Igreja católica a partir do Concilio Vaticano II e algumas decisões tomadas pelo então Papa João XXIII que segundo ele levariam a Igreja a abrir as portas para o modernismo dentre outros perigos mais. Ao que nos parece Lefebvre apontava para um perigo pertinente dentro de uma caminhada da Igreja para a atualidade, porem muitos vêem tal posicionamento ora como uma aberração por discordar do CVII, outrora como se fosse um rompimento com toda a Igreja.
Tais militantes  consideram o concilio ecumênico como se fosse culpado de tudo que ocorreu na Igreja nesses 50 anos, tal julgamento desconsidera uma serie de outros fatores, como a própria história por exemplo. A Igreja não é culpada do materialismo da modernidade ou dos exageros do humanismo. Num sínodo se reuni bispos do mundo inteiro, teólogos e pensadores, justamente pra não correr o risco de ficar na superficialidade dos fatos, visto que um Papa tem a consciência que o que vai ser discutido ou definido ali influenciará o mundo inteiro e diversas gerações posteriores.
Vale ressaltar que o CVII não foi um concilio dogmático, dessa forma, não o dá o estado de infalibilidade, o que também não justifica considerá-lo “anti-igreja” como alguns que se dizem Lefebvrista afirmam por aí. O que se percebe é que muito ainda se deve estudar, dialogar e, sobretudo, guardar o sentimento de unicidade com a Igreja Católica a qual o próprio Lefebvre conservou até a morte, um zelo descomunal. Outro ponto que tem causado polemica é que, Dom Marcel Lefebvre ao fundar a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, expressou o desejo de reunir seminaristas, sacerdotes e fiéis que queriam continuar usando ordinariamente os livros anteriores à reforma do Vaticano II, livros esses que se referem basicamente ao Missal sem as alterações do concilio e do Papa João XXIII.
Ora, seria uma atrocidade dizer que não se pode rezar Missas Tridentinas, ou Missas que se rezavam até 1960. Seria o mesmo que jogar na lata de lixo toda a nossa história de quase dois mil anos e considerar que nossos pais, avós e antepassados estivessem condenados ao inferno por assistirem às Missas rezadas em latim ou por outra liturgia que não é a de hoje. O próprio Papa Bento XVI no Motu Proprio Summorum Pontificum declarou que em algumas situações a Missa Tridentina que passou a se chamar forma extra ordinária do rito romano poderia ser celebrada. O problema é que alguns grupos que se consideram tradicionalistas, não somente querem ter o direito de celebrar a “missa de sempre” como tem espalhado indignações e suposições em que somente essa seria a válida, e que as Missas celebradas em vernáculo e com as alterações no Missal seriam invalidas, inclusive colocam em cheque a autenticidade sacramental. 
Sempre digo que os extremos, independente de qual seja a orientação do que se defende, são perigosos, neste caso, dos que acham que não pode continuar a celebrar a "missa de sempre" em hipótese nenhuma e dos que acham que é a única forma de celebrar desprestigiando a autenticidade da atual. Voltando teoria da análise do discurso é possível a alguém ler sobre Dom Marcel Lefebvre, amá-lo, segui-lo, e ao mesmo tempo “odiar” o que se tem dito sobre e a partir dele.
 
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